da minha solidão
pouco quiseram saber
o sorriso no rosto estampado dizia:
– tudo bem!
mas não olharam fundo
na íris castanho escuro
com o brilho opaco
por carregar o mundo
muitas vezes pesado
outras tantas imundo

me entristeci
chorei
ninguém viu

envelheci
gritei
alguém ouviu?

todo dia é dia de luta
no coração angustiado
desacreditado
que bate acelerado
no ritmo das pessoas
que não caminham
lado a lado

mas ele não para
pois ainda resta
o sentimento
verdadeiro
que nenhum dinheiro
há de comprar

Felicidade?
não, eu já a tenho escondida
em algum lugar.

Coragem?
talvez seja sinônimo
mas não há exatidão.

O que tenho é uma flor
guardada bem no fundo
pois precisa de calor
em meio há tanta frieza
de pessoas preocupadas com beleza
ela sobrevive no solo
sofrido e castigado
passou por temporais e secas

no entanto
permanece intacta
esperando a primavera chegar

o nome dessa flor?
ora, amor!

Carta para a minha pequena

Nos últimos tempos me bateu uma vontade louca de te conhecer. A verdade é que nem sei quando isso será possível, e se haverá uma oportunidade assim. Mas eu senti, sinto e acho que sentirei  essa vontade por muito tempo. Estranho… até ontem eu nem pensava sequer nessa possibilidade.

Quando esse momento chegar, eu quero te mostrar todos os meus sonhos guardados e escritos em entrelinhas (com espaçamento um e meio). Devo lhe dizer que sou cheia de frescuras. Em certos momentos eu gosto, sabe? Mas não quero que também fique assim. É que é muita neurose. Assim como também não desejo que se torne uma pessoa ultra-sensível e com tendência a ser solitária. Não vou mentir, é bom pra caramba estar em contato com a gente mesmo, produzir diálogos, entender cada pontinha de sentimento que em muitos momentos surgem, do nada, e  em muitos casos, sem explicação. Mas há momentos que é chato.

Quando você chegar quero te contar tudo que tenho aprendido sobre o nosso corpo e como ele se conecta com a natureza. Acho que quando você estiver aqui, bem perto, aqui dentro de mim, sentirei essa conexão ainda mais profunda. Quero todos os dias te mostrar que independente do que lhe digam, você é uma pessoa linda. Não sei, mas acho que herdará o meu jeito romântico e intenso. Imagino que o seu sorriso será como o meu. Não, fisicamente não. Digo, a essência em sorrir. A alegria e espontaneidade que independem de motivo. Seria muito bacana se tivesse uma alma sonhadora. Apesar das dificuldades de ser assim, acho que nesse mundo, é a única forma de ser que vale a pena.

Às vezes eu tenho medo de te trazer pra cá. O mundo é perverso. Tem gente que quer colocar crianças num lugar horrível, por que acreditam que a maldade, até mesmo nos mais inocentes, é uma opção de vida. Esses dias eu vi num jornal, que uma menina foi agredida por ter uma crença diferente daquela do seu agressor. Em outro, vi que queriam impedir duas pessoas que se amam de casarem, assim, sem justificativa plausível, aliás, não há nada que justifique tamanho preconceito. Sabe, por tantos motivos eu tenho medo que você venha. Acho que é por isso que eu tenho negado essa possibilidade há tanto tempo, e ainda nego, em alguns momentos. É porque quando amamos alguém só desejamos o bem pra essa pessoa. E eu, bem, eu já te amo muito antes de te conhecer.

Se você vier, eu quero te apresentar muita gente. Há alguém que possui um coração tão bonito, ela se chama Amélie Poulain, você vai adorá-la. Há uma menina, tão valente, ainda pequena ela lutou por acesso à educação em seu país, seu nome é Malala Yousafzai. Quero que leia os versos e cartas de Florbela Espanca, Anäis Nin, Cecília Meireles… Ah, você tem que conhecer Elizabeth Bennet, me acho tão parecida com ela. Tem tanta gente que eu quero te apresentar!

Mas acima de tudo, o que eu mais desejo, é que sejas livre. Livre pra viver. Livre pra escolher. Livre pra sonhar. Livre. Pois só assim, você será capaz de amar. E o amor é o que vale a pena. É por ele que eu decido te trazer pra cá. Um dia nos encontraremos, minha pequena. Eu amo você.

Don’t You Forget About Me

Eu não quero esquecer você, nem dos nossos momentos juntos, mas eu não posso seguir com você nesse caminho que eu nem sei aonde vai dar. Não que eu não curta uma aventura sem destino, é que a sua inconstância tem me deixado pra baixo. Eu não quero me esquecer das noites  que você tirou de mim gemidos e suspiros de prazer, ou daquelas  em que chapamos reclamando da vida e de todos que pertencem à ela. Mas é que o tesão tem acabado, tá faltando aquela química, sabe? Que sempre tivemos. De repente, tudo se tornou automático, os passos estão todos cronometrados e sem vida.

Hoje nem estava pensando em você, mas aí, em uma playlist aleatória que eu estava ouvindo, tocou aquela música que tocou várias vezes enquanto estávamos juntos. E, meu bem, assim como diz a música, não se esqueça de mim também, nem desses momentos.

Que vontade que me deu de te ligar, ouvir tua voz e dizer pra vir  me buscar. Mas lembrei que nos últimos dias você tem se ausentado cada vez mais e que o seu celular tem ficado desligado a maior parte do tempo. Não quero saber a causa disso tudo, tem acontecido de forma natural, então é pra ser assim.

Eu não queria partir sem dizer o quanto estar com você nos últimos meses me fez bem. Também não queria ir sem dizer pra você se cuidar, planejar melhor a sua dieta vegetariana, para que não fique sem proteínas. Eu não queria ir embora sem te deixar mais uma vez nervoso e me divertir com o seu jeito estressadinho. Eu não queria…

Você é um cara foda.  Eu adorava ter você em meus braços quando a porta do seu quarto era fechada. Porque era ali que eu encontrava nos teus olhos a paz que  procurava nos momentos difíceis da semana. Eu adorava ouvir a sua risada e as suas histórias do tempo da adolescência. Adorava quando me beijava desprevenida e me deixava sem saber o que fazer, mesmo com tanta intimidade. Eu adorava tudo isso, mas preciso ir.

É meio clichê o que vou dizer, mas não é você, sou eu. Eu não suporto mais chegar no fim do dia e não ter notícias suas. Eu não me contento mais em ouvir que você não está muito bem e não poder ajudá-lo ou sequer saber o que tem passado com você. Eu queria cuidar de você, saber do teu dia, dos teus projetos, e claro, não te sufocar com tudo isso. Eu não te quero mais pela metade, porque eu quero me entregar a você por inteira. Estou cansada de me doar aos poucos, quero ir com tudo, sendo assim não posso querer receber o que eu não quero dar.

Eu estou indo. Espero que você encontre alguém que te faça feliz e que cuide de você do modo que você merece. Alguém que te arranque risadas nos dias em que a bad apertar, que deite contigo e faça você dar aquele sorriso depois do deleite. Deixo com você aquela minha camisa manchada de vinho e meu livro do velho Buk, que é pra  lembrar dos momentos agridoces que tivemos.

Adeus.

O passar dos dias tem sido estranho. Há muito tempo mudei completamente. Dos cabelos longos, me desfiz. Do antigo conservadorismo, também. A intensidade sempre esteve presente. No meu olhar, na minha voz e no meu silêncio. De repente, me olhei no espelho e encontrei a menina-mulher que sempre quis ser. Mas alguma coisa estava errada. O planejado era que todos compreendessem que a ingenuidade permanecera.  Estou farta das mentiras que observo diariamente. Pergunto a mim mesma, porque as pessoas preferem esconder tudo que sentem ou pensam. Nesse jogo de adivinhações de desejos não sou boa.

Georgia Theologou

Georgia Theologou

A mão treme
olhar cabisbaixo
liquido incolor
doloroso
recaí e molha a pele
delicada e com marcas
de tempos difíceis
em que o coração saltita
a boca grita e a voz não sai
a escuridão decaí
adormece
sonhos
onde estão?
sumiram todos
doentes crônicos
de antigos tolos
que habitaram o ser
que agora não quer acordar

Olha pra mim

Tira essa mágoa
do teu peito
Acredita em mim
que eu dou um jeito

De curar toda essa dor
Que te pega
Te aquieta
E te machuca

Pode confiar
Por que contigo
Eu não sou só maluca.

Veja bem

Olha os meus olhos
O meu carinho

Não percebe que eu tenho ajeitado
Nesse tempo todo
Aqui – Em meu peito
O teu ninho?

Se é amor que tu quer
Eu tenho
Bem guardado

Não pense nos problemas que vier
Tape os ouvidos
Para as coisas que algum
dos teus “amigos” disser

Por que meu bem
Eu sou toda tua
De mais ninguém

Ah, coração vagabundo!
Que não escuta os conselhos que
A minha razão lhe dá.

Tenho andada aflita
Em meio a guerra entre
Tu e ela.

Toma tento, menino!
Que morrendo de amor
Tu me matas também.

No silêncio que carrego trago todo o meu ser.
Nem sempre habito as palavras que digo.
Sou o brilho do olhar da criança – inocente.
Visto me do brilho das estrelas cadentes.
Sou os sonhos que tenho ao assoprar um dente de leão.
Sou travessa, menina, morena.
Faço amor com os corpos celestes durante a madrugada;
E me desperto ao lado do astro rei.
Cavalgo pelos prados em busca da riqueza no fim do horizonte.
Esperançosa corro ao encontro do mago que me transformará – o amor.

Eu tenho medo do dia em que não irei
pôr os meus olhos sobre os teus.
Tenho medo daquilo que carrego em meu peito
e que é mais forte do que os ventos do norte.
Tenho medo da pessoa que criei pra te agradar
e que tem me destruído dia após dia.
Tenho medo do céu escuro que
outrora se parecia com a minha solidão.
E tenho medo de terminar só
tendo ao meu lado uma multidão.
Tenho medo daquilo que tu podes
causar dentro de mim.
E daquilo que jurei nunca fazer
e que tenho feito sem pestanejar.
Tenho medo de me libertar da mentira que criei.
E dar de cara com o meu rosto no espelho
e ver meus olhos vermelhos de tanto chorar.
Tenho medo de chorar.
Tenho medo de amar.
Tenho medo da  imensa falta que irei sentir.
Tenho medo – medo do adeus.
Mas eu lembro que você me disse pra eu ser corajosa.